Uma publicação do Centro de Ciências de Educação e Humanidades - CCEH

Universidade Católica de Brasília - UCB

Volume I - Número 3 - Junho 2005 - ISSN 1807-538X


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A natureza de Eros e sua relação com a filosofia

Marta Rodrigues Cougo, Adriana Costa, Aurélio Rodrigues, Fabiano Epifânio, Idelfonso Braz, Irinéa Morais, José Roberto, Marilene Moraes, Renato Castro e Silvanir Fagundes.

Introdução

A questão que se coloca é a seguinte: o discurso de Sócrates no Banquete recorre às palavras da sábia Diotima de Mantineia[1], para provar a relação da natureza de Eros e a filosofia. Em que medida o filósofo se compromete com tal sabedoria?

No início de sua fala, Sócrates relata o discurso de Eros que ouvira de Diotima de Mantineia, mulher muito sábia. A estrangeira usou o método interrogativo para provar que a natureza de Eros não é nem boa, nem má. Por isso, Sócrates considera mais apropriado utilizar o mesmo método. Conforme o diálogo, Agatão e Sócrates “consideram Eros um grande deus e o mais belo dos que existem” (Simpósio, 201 e) e o filósofo levará em consideração o discurso de Agatão[2] e o comparara com a sua remota concepção sobre esse deus.

Etimologicamente a palavra filosofia significa amizade e sabedoria, do grego philos (amizade) e sophia (sabedoria) definida, em primeiro lugar, pelo pré-socrático Pitágoras de Samos como amor ou amizade pelo saber. No Banquete, Platão faz alusão a essa definição pitagórica. Isso se deixa conhecer na fala da sábia Diotima de Mantineia, personagem a quem Sócrates atribui o que ele sabe sobre esse deus chamado Eros. No diálogo, Eros é um “demônio” (daimon), cuja função é essencialmente a de síntese. Ele é a síntese das características herdadas de seus pais. Por ser filho de Poros (recursos) e “neto”, por assim dizer, de Métis (sabedoria e inteligência prática) Eros herdou características de altivez. A figura paterna nos remete à idéia de uma natureza inventiva e astuciosa, sempre a espreita na procura ou na caça. Engenhoso, Poros sabe encontrar os meios para obter aquilo a que visa, é investigador, caçador, conquistador. Já de Penia que o gerou, pobre, mendiga, que se aproveita do sono pesado de Poros para conseguir alívio para sua miséria, Eros herdou características opostas às de seu pai. Pois, Penia é o não-poros, tudo a caracteriza negativamente.

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Dessa forma, nasceu Eros e essa é a sua natureza. Ele não nasce de Afrodite, como o deixam entender algumas narrativas mitológicas, nasce sob o signo da eterna beleza. É por isso que, sem ser ele mesmo belo, será aspiração pela beleza. Apesar de ter herdado características de seus dois pais, características essas que não são harmoniosamente estáveis, pode-se considerar sua natureza feliz, pois ele é rico em recursos potenciais, não tem nada, mas pela consciência desse seu estado quer muito. Está em penúria, mas sabe de sua penúria; quer sair de si e aspira por saber, por beleza e fecundidade. 

As características com que a sábia de Mantineia descreveu a natureza de Eros parecem ter uma relação muito próxima com a filosofia, em especial, com a figura do seu interlocutor Sócrates. Diotima diz que é por estar no meio, entre a ignorância e o saber, que o amor é filósofo. Segundo ela, um Deus não filosofa, já que é ciente de que sabe (Simpósio, 204 b); o ignorante não filosofa, pois nem mesmo sabe que não sabe. Eros está consciente da carência e aspira, com todo o seu ser, preenchê-la. Parte à conquista do saber, e é essa busca ou conquista que alude à alegoria da caverna, depois do filósofo ter percorrido o caminho ascendente e descendente, pode-se chamar, então, a isso de filosofia. Por isso é que Sócrates se parece tanto com ele. Como Eros, Sócrates não é belo nem feio, mas seduz e encanta; é pobre e anda descalço, mas está sempre em busca de enriquecimento interior; é ingênuo e ao mesmo tempo um caçador de verdades. Geneviève Droz escreve:

“por sua estranheza e pelo mistério que emana de sua personalidade feita de contrastes, é, ele mesmo, um daïmon, mediador e traço de união entre os homens e os deuses. Assim, a filosofia é amor, o amor é filósofo, e Sócrates é o protótipo acabado dessas duas mediações salvadoras”.(DROZ, Geneviève. Os Mitos Platônicos. Trad. de Maria Auxiliadora Ribeiro Keneipp. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1997.174 p.)

Sócrates transfigura a imagem divina e humana de Eros e representa a encarnação viva da filosofia. Nele, a humanidade se reconhece indigente, ao mesmo tempo, em que vê nele também a possibilidade de contemplar o absoluto, ou seja, de ser como Eros, sempre em busca da verdade.

O meio termo, como apresenta Diotima, referindo-se à figura de Eros e ainda utilizando-se de extremos para defini-lo como: belo e feio; ignorante e sábio; mortal e imortal traduzem ou apresentam direções para a incógnita da vida. Com isso ela quer mostrar que nem sempre o que aparenta ser feio desqualifica a sapiência do mesmo e que a sabedoria se dá nas coisas e nas ações das pessoas. Os extremos sabedoria e ignorância, personificados na figura de Poros e Penia, respectivamente, irão fortalecer ou fundamentar o propósito de Eros. Nesse sentido, pode-se dizer que Eros contempla o aspecto dos imortais e dos mortais através do valor que se dá à natureza da vida. O sentido dar-se-á na esfera finita ou, ainda, se manterá por toda a eternidade.

Quando Diotima afirmou que Eros não é bom nem mau, Sócrates julgou que então ele seria feio e mau. Diotima disse que o que não é belo, não é necessariamente feio. Pois quem não é sábio não é por isso ignorante, uma vez que existe um meio termo entre a sabedoria e a ignorância. Nesta passagem considera-se que o relato de Diotima harmoniza-se com a filosofia platônica, pois a opinião verdadeira é um meio termo entre a sabedoria e a ignorância. A opinião reta sem argumentação conveniente não é sabedoria, uma vez que não se sabe fundamentá-la e, também, não é ignorância, porque atinge a verdade. Com este exemplo Diotima apresenta a possibilidade de que o que não é belo, por isso não é feio, o que não é bom, não é mau. Assim é Eros, algo intermediário entre dois termos. Entretanto, dada à natureza ele não poderia ser considerado um deus, sendo que os deuses são felizes e belos. A felicidade e a beleza são concedidas aos deuses porque eles as possuem; se Eros carece de coisas boas e belas, então ele deseja o que lhe falta. “Como então ele poderia ser um deus uma vez que não participa, nem das coisas boas, nem das belas?” (Simpósio, 202 d). A palavra “participa” usada por Diotima alude à participação das idéias no mundo inteligível de Platão. As Formas ideais como Verdade, Beleza e Bem participam uma da outra, sendo que é inconcebível para Platão alguém ser sábio e não ser belo, ou ser belo e não ser bom. No entanto, no que diz respeito à natureza de Eros, Sócrates pensa que ele não pode ser um deus, se ele não participa do belo e do bem. Se ele não é um deus, então é mortal. Essa conclusão de Sócrates não é aceita por Diotima que afirma ser Eros um meio termo entre o que é mortal e o que é imortal. Sócrates não compreende o que Diotima quer dizer e pergunta: “Que pretendes dizer com isso?” (Simpósio, 202 e). A sábia responde que pretende dizer que Eros é um demônio poderoso e tudo o que diz respeito à natureza demoníaca representa o meio termo entre os seres divinos e os seres mortais. Com isso, é necessário saber o que é um demônio, quais são suas propriedades? O demônio pode ser considerado um mensageiro perspicaz que, primeiramente, interpreta o que é próprio dos seres humanos e leva aos deuses, depois, traz aos homens o que é próprio dos deuses. Súplicas e sacrifícios dos homens, as ordenações e recompensas divinas. Demônio está entre uns e outros, ocupa o espaço intermediário, mantendo unidas estas duas partes que formam o todo. Do demônio procedem a arte divinatória, as artes sacerdotais relativas aos sacrifícios, as iniciações às magias e encantamentos. Atribui-se à distância dos deuses dos homens a necessidade do demônio, para estabelecer comunicação entre ambos, tanto no estado onírico, quanto no estado de vigília. O homem versado nestas coisas tem caráter demoníaco e é inspirado pelos deuses, enquanto o homem que tem arte para fazer outras coisas que não aquelas, pode apenas ser considerado artífice. Muitos são os demônios, possuidores de muitas espécies, entre eles está  Eros. 

É necessário lembrar da Apologia de Sócrates, quando o filósofo defende-se perante o tribunal de Atenas por corromper os jovens e suscitar novos deuses. A segunda acusação é defendida por Sócrates da seguinte maneira: ele dizia escutar a voz de seu daimon que sempre o aconselhava sobre o que deveria fazer. A maioria dos comentadores atribui o significado de demônio à consciência intima, à voz interior.  Porquanto, ousa-se relacionar esta passagem do Banquete à da Apologia de Sócrates porque Diotima profetiza o conhecimento da natureza de Eros, o qual Sócrates considera ter aprendido com a profetiza pitagórica. Isso quer dizer que o filósofo em questão considerava-se um homem de caráter demoníaco e inspirado pelo deus. 

Eros tem sua genealogia modificada por Platão que atribui a Penia e a Poros. No relato arcaico hesiódico, Eros é considerado um dos deuses primordiais, o que significa pertencer à origem cósmica. Para Hesíodo Eros é o deus que possibilita o encontro entre os deuses e, também, organiza a ordem cósmica com essa sua potência erótica. 

“Os Deuses primordiais
Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre,
Dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, 
E Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias,
E Eros: o mais belo entre Deuses imortais,
Solta-membros dos Deuses todos e dos homens todos
Ele doma no peito o espírito e a prudente vontade.” 
(Teogonia, v. 116-122.)

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Aponta-se no Banquete, a história de Eros, que possibilita a interpretação de que ele se trata de um demônio, pois é intermédio entre o que é imortal e o que é mortal. Isso se deve às naturezas de seus respectivos pais. Conta Platão que os deuses se reuniram em um banquete para comemorar o nascimento de Afrodite. A partir deste relato Platão estabelece as relações de Eros e a filosofia. Para ele, o filósofo distinguiu-se do ignorante e do sábio. Este último considera-se conhecedor de muitas coisas, o segundo por não saber, pensa que sabe, e o primeiro, consciente de sua ignorância, busca a sabedoria.  Por isso o filósofo encontra-se no limiar da ignorância e da sabedoria, nas palavras de Sócrates, entre o que é feio e o que é belo, entre o que é mau e o que é bom. O desejo que impulsiona o filósofo deve-se a Eros, é um dos demônios que orienta Sócrates no sentido de conhecer a verdade que é divina.

Diotima não compreende um amor que tem sua origem no impulso, mas entre a sabedoria e a ignorância. A sábia de Mantineia não nega o pensamento racional instituído por Sócrates, mas o utiliza para fundamentar sua compreensão a respeito do Amor. Pois, comparar o Amor ao filósofo é dizer que ele não é inconsciente mas repleto de razão. Percebe-se essa analogia quando Diotima diz que o Amor não é sábio e nem ignorante; belo e nem feio; mas, é o seu meio termo, e o filósofo também não é sábio e nem ignorante, ele está entre um e outro. Não obstante, ela diz que, como o filósofo busca a sabedoria, o Amor busca o belo, nessa semelhança pode-se entender que o Amor está imbuído de uma certa racionalidade socrática.

No diálogo travado com Sócrates, Diotima apresenta, segundo Platão, várias facetas do que para ela é a beleza. Daí decorre a necessidade de compreender o meio termo, ou melhor, compreender Eros como sendo este meio termo. Pois, por estar no meio entre a ignorância e a sabedoria é que se diz que Eros filosofa. 

“Os que filosofam são os que se encontram entre uns e outros, e Eros é um desses. Com efeito, a sabedoria encontra-se entre as coisas mais belas e Eros tem o amor das coisas belas, de onde se torna necessário que Eros filosofe e, se filosofa, é porque se encontra no ponto intermediário entre o sábio e o ignorante”. (Simpósio, 204 b)

Outro fator que também está relacionado ao amor é o ato de procriar. Para Diotima, “quando chegamos à idade própria, a nossa natureza sente o desejo de gerar, mas não pode gerar no feio, não poder gerar a não ser no belo e, com efeito, a união do homem e da mulher é um ato de geração e de procriação” (Simpósio, 206 d).  Segundo Diotima, o belo retrai no feio, ou seja, o belo não combina com o feio, por isso, se diz que a procriação só pode acontecer no belo. Cada animal, cada homem procura aquele que é bonito para si, daí resultará o amor pelo outro, o amor pela beleza do outro.

O desejo de procriação também remete a uma outra questão: todos os animais, inclusive o homem, amam e procriam por uma necessidade de perpetuação. Para um mortal é a única possibilidade de continuar imortal, pois seus filhos irão sucedê-lo. Eros, aqui, é considerado como o desejo de imortalidade, porque as pessoas o veneram, dado que ele é o grande impulsionador deste desejo, uma vez que é o deus da beleza, e o ato de procriar é belo.

Segundo Diotima, até mesmo os animais são exemplos vivos deste amor de perpetuação e  imortalidade. Eles são capazes de se sacrificar para dar a vida a seus filhos e de ficar sem comer para alimentá-los. Estão sempre prontos a defender seus filhotes, mesmo os mais fracos contra os mais fortes e, se necessário for, estão dispostos a morrer por eles. O homem  procria por causa da  necessidade de perpetuidade, ele o faz com consciência; já os animais, o fazem de modo instintivo.

Outra questão importante, abordada no discurso entre Diotima e Sócrates, diz respeito à beleza eterna. Será possível ao homem conquistar uma beleza que seja, de fato, eterna? Beleza que exista nela mesma e por ela mesma? Nesse sentido, o diálogo parece conduzir a um possível conhecimento do belo em si próprio. Ao que tudo indica, para se chegar a esse ideal é preciso rever alguns conceitos, retomar e “criar novos valores” – como afirma Nietzsche. Só assim o homem poderá contemplar a beleza tal qual ela é, livre de tudo aquilo que possa querer inibi-la, camuflá-la ou, até mesmo, anulá-la.

O Amor que Diotima ensina não é mortal, nem imortal; não é pobre, nem rico; não é Deus, muito menos homem; não é belo, nem bom. A condição do Amor é sempre intermediária. Como o desejo de felicidade, ele é universal e não é próprio apenas do homem. Seu verdadeiro objeto é a conservação e a reprodução da vida e não apenas de uma vida corpórea, mas também da vida intelectual.

Com isso, Sócrates termina sua fala fazendo uma grande exaltação à figura de Eros demonstrando sua admiração e louvor pela força e virtude deste ser superior que é, para ele, o sumo bem. Sócrates deixa claro para todos os presentes que este é o seu elogio e gratidão à figura de Eros e, dirigindo-se a Fedro, sugere aos que não ficaram satisfeitos com o seu discurso, que lhe confiram o nome mais adequado.

Daí decorre que a condição do amor é o desejo do bem maior, isto é, da virtude. Este bem é algo que transcende a própria condição mortal do homem. É através de Eros que o indivíduo pode ir ao encontro do belo, visto que o amor propaga-se nos seus descendentes. Por esse motivo, o ser humano preocupa-se demasiadamente em ter frutos de sua união conjugal, pois seu desejo de imortalidade é visto quando sua carga genética passa para seus herdeiros, com isso, ele continuará vivo após sua morte e tal ciclo é infindável, pois, a tendência é continuar repassando sua herança para outras gerações. Assim, tanto os homens quanto os animais, protegem suas crias mesmo sem forças, porque seus filhotes estão carregando o bem tão desejado e, finalmente, adquirido. Dessa forma, pode-se afirmar que o Eros é a síntese entre a vida e a morte, o indivíduo progenitor morrerá e seus descendentes continuarão existindo, carregando parte de seus ancestrais, que lhes foram concedidos pelo o que é mais sublime dos seres humanos: o Amor.

Diotima, Segundo Proclo, era uma pitoniza pitagórica. Platão extrai de ambos os nomes uma sugestão para a profecia: mantinikês, favor celeste e diotimas: predicados da sofia (voltar).

O diálogo narra o episódio da vitória de Agatão por ocasião de um concurso de discursos (voltar).

Saiba mais

PLATÃO. O Simpósio ou do Amor. Trad. de Pinhranda Gomes. Lisboa: Guimarães Editores, 1986.

Profa. MSc. Marta Rodrigues Cougo é doutoranda em Filosofia Antiga pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professora do curso de filosofia da Universidade Católica de Brasília.
Graduandos do Curso de Filosofia da Universidade Católica de Brasília. 

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Última modificação: 05 dezembro, 2005