Uma publicação do Centro de Ciências de Educação e Humanidades - CCEH

Universidade Católica de Brasília - UCB

Volume I - Número 2 - Novembro 2004 - ISSN 1807-538X


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Ciências humanas e ciências naturais, na visão de Boaventura Santos

Maximino Basso

Pretende-se, nesse breve artigo, levantar algumas questões referentes à relação entre Ciências Naturais e Ciências Humanas, tendo como fio condutor o pensamento de Boaventura de Souza Santos. Trata-se de um tema muito importante, ao nosso ver, para todos os que atuam em uma universidade.

E você, o que pensa sobre o assunto? Será que as ciências dos fatos produzidos pelos homens têm o mesmo estatuto de cientificidade que o das ciências dos fatos da natureza? Ou, ao contrário, teriam elas lógicas complemente diferentes? Ou, ainda, não poderia haver um meio termo entre ambas? O que você tem a dizer sobre essa questão? Como devemos conceber a relação entre esses dois tipos de ciência?

Se você adotar a tese de que há uma única maneira de fazer ciência, neste caso, a nossa questão estaria resolvida. Pois, como as ciências naturais, há muitos séculos, vêm mostrando sua fecundidade e sucesso, então, se as pesquisas dos fatos humanos quiserem ter um estatuto científico - dentro dessa ótica -, isso só será possível se elas se pautarem nos critérios de objetividade, neutralidade, enfim, no método das ciências naturais. Essa é, em essência, a posição de todos os autores ligados ao pensamento positivista.

Santos, contudo, vai sugerir-nos novos caminhos. Ele parte, em seu estudo (Veja 1993, p. 9-119) da tese de Bachelard de que tanto as ciências naturais como as humanas - inclusive a filosofia, enquanto discurso articulado e rigoroso - comportam duas rupturas epistemológicas.

Chico Ferreira
Núcleo de Fotografia UCB Captura

A primeira: todo processo científico só pode acontecer quando o pesquisador sai da linguagem do senso comum e busca uma linguagem técnica, própria de um saber rigoroso que busca encontrar a verdade; pois a ciência, nesse momento, se opõe à opinião. Dentro da linguagem do senso comum não é possível acontecer saber rigoroso e concatenado.

Contudo, quando a ciência tiver acabado sua pesquisa e discurso, se torna necessária a segunda ruptura: é preciso voltar à linguagem do senso comum, para que os resultados de suas pesquisas sejam acessíveis a todos os membros de sua comunidade. A ciência só pode ser constituída dentro de uma linguagem rigorosa; entretanto, os resultados da ciência devem ser traduzidos dentro da linguagem cotidiana, da linguagem própria dos que não pertencem à comunidade científica. Os conhecimentos conquistados devem ser divulgados ao público numa linguagem a ele acessível. Esse trabalho de construção e desconstrução (próprio da hermenêutica) dos conhecimentos alcançados, graças ao rigor do trabalho científico, é uma etapa essencial, pois toda ciência é uma atividade social e, como tal, trará impacto e conseqüências relativas à qualidade de vida dos membros da sociedade em que ela se exerce.

Os cidadãos comuns têm o direito e o dever de conhecer o que fazem e pensam seus cientistas e filósofos, porque também eles são co-responsáveis por tudo o que se faz e acontece no seio da sociedade em que vivem. Os resultados da pesquisa científica sempre trarão impactos, ao mesmo tempo, positivos e negativos sobre a vida dos cidadãos. A verdade da ciência não é algo atemporal e acima de qualquer suspeita: ela pode ser usada de modo abusivo, ideológico e autoritário; por isso, todos os cidadãos têm direito a discutir, ao menos, as conseqüências positivas e negativas dos resultados da pesquisa.. A verdade da ciência se dá sempre na e para a sociedade: ela é prática e social.

Santos acentua o aspecto pragmático da verdade que, segundo William James, consiste em saber "que diferença faz, para você e para mim, em instantes precisos de nossa vida, se esta fórmula-mundo ou aquela fórmula-mundo é verdadeira", (Santos, 1993, 44). A maneira como a ciência ou a filosofia concebe o mundo traz conseqüências que mudam fundamentalmente nosso modo de existir no mundo. Por isso, todos nós temos o dever e o direito de discutir sobre o que implica tudo isso. Até hoje a filosofia, a ciência e a tecnologia se impuseram autoritariamente às nossas vidas; mas ela é uma atividade social e, portanto, só se justifica enquanto está a serviço dessa sociedade e, com ela, discute as implicações de suas proposições.

Mas, agora, quando compreendemos que todo saber tanto das ciências humanas quanto das ciências naturais deve ser considerado como uma práxis da sociedade, resta ainda falar sobre a relação entre elas.

Historicamente, por fatores que não cabem aqui analisar, as ciências da natureza - não cabe aqui analisar o motivo – como que naturalmente impuseram seu método quantitativo e seu ideal de objetividade e neutralidade às ciências humanas, pois aquelas tiveram um desenvolvimento muito maior que estas. E após o positivismo, sobretudo, parte-se da pressuposta "superioridade", das ciências naturais para explicar a "precariedade" das ciências humanas ou sociais que, embora buscando seguir o modelo daquelas, nunca conseguem alcançar a objetividade, a neutralidade e seus brilhantes resultados.

Ora, Santos julga que até hoje, ao colocar a questão de saber se o estatuto científico das ciências humanas ou sociais é igual ou diferente ao das ciências naturais, este questionamento, da forma com foi colocado, não apenas é insolúvel, mas também constitui um obstáculo epistemológico ao avanço do conhecimento científico, tanto para as ciências sociais como para as ciências naturais.

“Para superar isso, é preciso inverter os termos da questão: partir da precariedade do estatuto epistemológico das ciências naturais (o que implica uma ruptura total com a filosofia positivista) e perguntar se as ciências naturais são iguais ou diferentes das ciências sociais.” (Ibidem, 51).

Agora estão em questão, sobretudo, as próprias ciências naturais. O autor afirma que hoje “as ciências naturais ainda são diferentes das ciências sociais, mas aproximam-se cada vez mais destas e é previsível, em futuro não muito distante, se dissolverem nelas" (Ibidem, 52). E isso graças a duas razões teóricas. Primeiro, porque o avanço científico das ciências naturais é

"o principal responsável pela crise do modelo positivista e, em face dela, as características, que antes ditaram a precariedade do estatuto das ciências sociais, são reconceptualizadas e passam a apontar o horizonte epistemológico possível para as ciências no seu conjunto. E, em segundo lugar, a materialidade tecnológica em que o avanço científico das ciências naturais se plasmou não fez com que os objetos teóricos das ciências naturais e das ciências sociais deixassem de ser distintos, mas fez com que aquilo em que são distintos seja progressivamente menos importante do que aquilo em que são iguais” (Ibidem, 52).

Portanto, se quisermos pensar a relação entre ambas, devemos fazê-lo, não mais caminhando das ciências da natureza em direção às ciências do homem, mas, inversamente, realizar o caminho inverso: partir das ciências do homem para as ciências dos fatos naturais. E o porquê disso Santos explica: "o impacto do desenvolvimento científico‑tecnológico faz com que o mundo humano de hoje, seja cientificamente constituído. No entanto continua a dominar uma concepção desse que é a do mundo não-humano. Se todo conhecimento humano é social em sua constituição e nas conseqüências que o produz, só o conhecimento científico da sociedade permite compreender o sentido da explicação do mundo 'natural' que as ciências naturais produzem. Por outras palavras, as ciências sociais proporcionam a compreensão que dá sentido e justificação à explicação das ciências naturais. Sem tal compreensão não há verdadeira explicação e, por isso as ciências sociais são epistemologicamente prioritárias em relação às ciências naturais" (Ibidem, 68).

Herbert Carlos
Núcleo de Fotografia UCB Captura

Essa posição implica, segundo Santos, a superação do paradigma da ciência moderna. Mas não se trata de valorar, agora, as ciências humanas como superiores às naturais, mas a hegemonia daquelas significa apenas que seus modelos hermenêuticos serão cada vez mais usados pelas próprias ciências da natureza.

Assim, se quisermos sair do impasse imposto pelo positivismo às ciências humanas, temos que superar o paradigma controlador e manipulador da ciência moderna. É preciso ver que toda ciência é práxis social. E fenômenos sociais são estudados pelas ciências sociais e não pelas ciências naturais. Na medida em que se toma consciência dessa obviedade, a concepção de como se relacionam esses dois tipos de ciência se transforma, os dogmatismos se esvaem e, desta forma, ciências sociais e as ciências naturais - cada qual mantendo suas peculiaridades e objetos específicos - caminham lado a lado na tentativa de propor a verdade a que elas tiveram acesso, visando à construção de um mundo que proporcione, a todos seus habitantes, condições de existência e qualidade de vida que sejam condizentes à sua dignidade. Mas isso só acontecerá se o paradigma da ciência moderna for superado.

Um outro elemento importante que o autor desenvolve em seu livro é a questão da retórica. Nós sabemos que, desde Aristóteles, o verdadeiro saber, por ser universal e necessário, devia excluir toda forma de retórica e manifestações emotivas. A ciência moderna se esmerou nessa preocupação. A ciência deve ser objetiva e neutra e, por isso, está completamente excluído todo e qualquer argumento retórico. Ora, Santos, reportando-se ao livro Nova Retórica de Ch. Perelman, mostra que embora oficialmente a ciência moderna exclua todo e qualquer elemento retórico em seu discurso, na verdade, sempre que surge uma nova teoria científica - como também mostrou Kuhn - essa só será aceita depois de um longo trabalho de argumentação e persuasão de seus pares. Portanto, parece claro, que todas as atividades sociais, inclusive as ciências naturais, sempre se dão dentro de um contexto de discussão, onde o que estão em jogo não são apenas argumentos que se dirigem à razão, mas o coração e os sentimentos também têm um papel importante neste jogo.

Concluindo, seguindo a visão do autor, pode-se concluir que toda ciência, seja referente aos feitos humanos como aos fatos naturais, é práxis social. E, uma vez que o estudo da práxis social cabe às ciências humanas, cabe a estas explicar as ciências naturais. E, deste modo, embora elas sejam constituídas de modo distinto, tudo indica que não podem mais ser vistas como dois tipos totalmente separados de saber. Se for superado o paradigma de um conhecimento instrumentalista e dominador da natureza e do homem, serão mais importantes as semelhanças que as dessemelhanças, nesses dois tipos de pesquisa. E as ciências humanas não precisam deturpar seu objeto de estudo para se adequar a exigências que só se justifica dentro do paradigma moderno de ciência que, como o autor mostrou, deve ser superado.

Saiba mais

SANTOS, Boaventura de Souza. Introdução a uma Ciência Pós-Moderna. 3ª Ed., Porto: Afrontamento, 1993.

SANTOS, Boaventura de Souza. Pela Mão de Alice. Porto: Afrontamento, 1994.

SANTOS, Boaventura de Souza. Um Discurso sobre as Ciências. 7a ed, Porto: Afrontamento: 1995.

SANTOS, Boaventura de Souza. Utopia contra a exclusão. Disponível em: <http://www.unb.br/acs/unbagencia/ag0404-17.htm>. Acesso em 09 de novembro 2004.

____________. O senso comum na escola. Disponível em <http://www.prociencia.com.br/editorial9.htm>. Acesso em 09 de novembro de 2004.

Prof. MSc. Maximino Basso é professor do Curso de Filosofia e Coordenador e tutor do Curso Virtual de Pós-Graduação de Filosofia e Existência da Universidade Católica de Brasília. (Lattes)

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Última modificação: 02 dezembro, 2004